A Bíblia conta que, de tão parecidos com seu Mestre, os discípulos de Cristo na cidade de Antioquia (no século I) foram chamados, pela primeira vez na história, de cristãos (Atos 11.26).

Seria muito bom se essa palavra conservasse, ainda hoje (quase 2000 anos depois), o seu significado original… Seria muito bom se confessar-se um cristão significasse, ainda hoje, crer em Cristo como Senhor e Salvador, seguir os seus passos, fazer parte da sua igreja, aguardar a sua volta… No entanto, o tempo roubou da palavra alguns dos seus principais significados e implicações.

Hoje, dizer-se simplesmente um cristão, não revela muito sobre aquilo que cremos, sobre a maneira com que olhamos para a Bíblia, sobre a igreja que pertencemos e, principalmente, sobre a maneira com que vivemos. Resumindo: a palavra se tornou muito genérica.

Hoje em dia, todo mundo é cristão! Por isso, para traçar um perfil da nossa identidade religiosa, é necessário ir um pouco além. Nós, aqui na Comunidade Libertas, somos cristãos, sim, mas também somos reformados, calvinistas e presbiterianos. Mas o que isso significa, como esses termos podem nos ajudar a entender quem somos?

Reformados

No início do século XVI, o monge alemão Martinho Lutero (1483-1546) liderou um movimento de reforma dentro da igreja católica, que na época vivia uma profunda decadência moral e espiritual, com muita imoralidade, corrupção, abuso de poder e distanciamento da Bíblia. Os seus seguidores passaram a ser conhecidos como “luteranos”. Poucos anos depois, na Suíça, surgiu um novo movimento de reforma, mais profundo e radical que o de Lutero, sob a liderança de um sacerdote chamado Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para se distinguir dos luteranos, os seguidores deste movimento se tornaram conhecidos como “reformados”. Com a morte prematura de Zuínglio, o movimento reformado se associou com um teólogo francês chamado João Calvino (1509-1564), que se estabeleceu em Genebra (na Suíça). Sendo assim, a igreja que se originou do movimento de reforma liderado por Lutero recebeu o nome de “Igreja Luterana”, e a igreja que se originou do movimento liderado por Zuínglio e Calvino recebeu o nome de “Igreja Reformada”. Nós, da Comunidade Libertas (filiada à Igreja Presbiteriana do Brasil), somos uma igreja de tradição reformada, porque descendemos historicamente do movimento liderado por Calvino.

Calvinistas

Dizer-se reformado nos identifica na história, mas dizer-se calvinista nos identifica na teologia. O calvinismo, como o nome indica, é o sistema de teologia elaborado por João Calvino, para alguns, a grande mente da Reforma Protestante. A teologia calvinista, que é bíblica, tem como principais fundamentos a soberania de Deus como criador, preservador e redentor e a autoridade absoluta da Bíblia em todas as questões de fé e prática. É por isso que uma grande marca das igrejas calvinistas é o estudo cuidadoso da Bíblia. Além disso, o calvinismo também apresenta diretrizes para o culto, a vida cristã, a evangelização, a postura da igreja em relação ao Estado etc. Normalmente, todos os reformados deveriam ser calvinistas, mas isso nem sempre ocorre na prática. Muitos herdeiros históricos do movimento reformado não podem ser designados como calvinistas, por terem abandonado certas convicções e princípios básicos defendidos pelo reformador. Portanto, todo calvinista é reformado, mas nem todo reformado é calvinista.

Presbiterianos

Quando chegou na Ilhas Britânicas (Inglaterra, Escócia e Irlanda) a igreja reformada recebeu o nome de igreja presbiteriana. O termo, derivado de “presbítero”, tem a ver com a forma de governo da igreja, que é conciliar e não episcopal. As razões para essa mudança de nome foram muito mais políticas do que religiosas. Os reis ingleses e escoceses preferiam o sistema episcopal (uma igreja governada por bispos e arcebispos), o que permitia um maior controle da igreja pelo estado, já que o rei é quem indicava os arcebispos. Já o sistema presbiteriano (o governo da igreja por presbíteros eleitos pela comunidade e reunidos em concílios), significava um governo mais democrático e autônomo em relação ao Estado. Assim, quando dizemos que somos presbiterianos estamos nos referindo à forma de governo da nossa igreja. A igreja presbiteriana chegou nos Estados Unidos (século XVII) e, de lá para cá, no Brasil (século XIX).

Resumindo, somos reformados (descendentes historicamente do movimento de reforma liderado por Calvino), calvinistas (entendemos a Bíblia conforme o sistema teológico formulado por ele), e presbiterianos (uma igreja que tem um sistema de governo conciliar). Antes de tudo, porém, somos cristãos, no sentido original do termo, e bíblicos, porque entendemos que acima de qualquer sistema teológico, a Bíblia deve ser a nossa única regra infalível de fé e prática.